O desabafo de uma carioca...

Hoje eu gostaria muito de vir aqui com um post de festa, de decoração... queria ter vindo aqui com alguma coisa pra esquentar o coração e colocar um pouquinho de cor na vida dos poucos que me lêem aqui. Mas hoje eu preciso usar esse espaço para desabafar.

Eu sou carioca. Nasci e cresci no Rio de Janeiro. . Conheço cada centímetro daqui. E conheço muito do Rio de Janeiro, com algumas ressalvas para a Baixada e Zona Oeste - as quais conheço pouco. Mas falou em Zona Sul, Barra/Jacarepaguá e Zona Norte/subúrbio... é comigo! Com muito orgulho eu posso dizer que sou dessas pessoas que circula bem em qualquer ambiente e tenho amizades da Baixada, de Campo Grande, Vigário Geral, Madureira... em qualquer canto desse Rio eu tenho a quem pedir socorro em caso de perrengue graças a Deus.

Mas há algum tempo o Rio vem me saturando: Engarrafamentos, falta de infra-estrutura, violência. Um dia fiquei sem luz uma madrugada inteira. Outro dia eu tive que encarar um caminho perigossíssimo para sair da faculdade e chegar em casa, porque houve confronto entre polícia e bandidos exatamente atrás da minha faculdade. E outro dia o meu noivo/marido teve que sair às pressas da faculdade porque havia ameaça de invasão à UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) da comunidade aqui do bairro. Hoje eu levei quase duas horas e meia para sair do trabalho e chegar em casa - em um caminho que, sem trânsito, eu levaria 30 minutos. Desse tempo, aproximadamente duas horas e passei entre dois bairros vizinhos - Barra e Freguesia - num caminho que não deve ter mais de 10 km.

Seguindo a sabedoria popular (aka Twitter), eu consegui descobrir que o problema de hoje era devido à uma manifestação que teve na Linha Amarela, a via expressa que liga a Barra à Ilha do Fundão (onde tem a UFRJ). Os "manifestantes" resolveram lutar pelos seus direitos de manterem residência em uma área do governo por eles invadida e que, por conta das milhões de obras na cidade, seria desapropriada. Fecharam a via expressa e por lá ficaram, por algum bom tempo à tarde, manifestando pelo direito de se manterem ilegalmente. 

Agora você imagine quem é carioca como eu, que paga os impostos em dia como eu, que acorda com o céu ainda escuro pra trabalhar como eu, tendo que atravessar um perrengue desse e perder horário de trabalho, de aula, de pegar o filho na creche ou de chegar numa emergência médica por conta de um protesto de gente que deveria estar trabalhando - assim como todos os outros que foram vítimas desse caos de hoje. 

"Ah, Carol... Mas não tem tanto emprego por aí".

Gente, talvez não tenha o quanto deveria, mas o brasileiro sempre dá um jeito. Lá na frente do meu trabalho tem uns meninos que passam grande parte do dia vendendo amendoim no sinal, seja debaixo de sol ou de chuva. Eu assino umas listas de vagas de empregos e não vejo vaga pra mim, que fiz faculdade e tenho 3 mil pós-graduações, mas SEMPRE vejo vagas para níveis menores.

Talvez o que falte é consciência, é força de vontade. O brasileiro, especialmente o carioca, está condicionado ao comodismo e ao "se vender" por pouco. É da nossa história o voto de cabresto e, infelizmente, essa tendência à preguiça social que nos assola, ainda tenhamos uma queda por votar naquele vizinho que é um faz-nada, mas botou uma caixa de cerveja no churrasco da galera da rua. 

E isso vira uma bola de neve: o pai não gostava de estudar, não estimula o filho a estudar, mas manda o moleque pra escola porque precisa ganhar o benefício assistencial do governo. O nosso sistema educacional, ridículo que é, estimula a criançada a não se esforçar, o que gera uma penca de professores desinteressados em praticar. Conclusão: para "sanar" o fiasco que é a nossa educação, criaram um sistema de cotas em universidades públicas - porque, claro, as estatísticas têm que mostrar que o brasileiro está tendo maior acesso à universidade. Por outro lado, várias fábricas de diplomas que recebem o gracioso apelido de "faculdade", crescem a cada esquina, despejando no mercado uma penca de pessoas sem massa crítica, que escrevem "mais" no lugar de "mas" e ainda falam "seje".

Nos hospitais públicos é normal o médico faltar e pagar pra outro ir em seu lugar. Condições de trabalho? Desiste. E nos hospitais particulares não é diferente. Outro dia tive uma crise de labirintite e fui parar no Barra D'Or. Entre dar entrada no atendimento e sair do hospital, foram 3 horas de espera. A culpa sempre é do exame de sangue, que não leva nem meia hora pra ficar pronto. E digo isso porque trabalhei em laboratório e sei como as coisas funcionam.

O brasileiro é conhecido pelo seu famoso "jeitinho". Tudo pro brasileiro tem jeito, e geralmente esse jeito nunca é por vias corretas. O carioca, por sua vez, ultrapassou esse nível. Aqui no Rio vale a lei da malandragem, e as pessoas parecem gostar disso: é bonito jogar lixo na rua, é bonito cortar o engarrafamento pelo acostamento, é bonito não dar passagem no trânsito. "Se a farinha é pouca, meu pirão primeiro" é o lema do carioca. Hoje mesmo, no meio do engarrafamento, pedi passagem para um infeliz que estava num Kadett. Vejam bem, o trânsito estava parado, eu estava há 5 minutos entre duas faixas de rolagem e precisava passar para o outro lado da via. No meio milímetro que andou, o Kadett avançou e não me deu passagem. Gente, o cara não ia desbravar uma distância de 100 km em meio segundo se não me desse passagem. Ele é um exemplo dos mais de 10 que encaro por dia entre ir e voltar do trabalho. Falta solidariedade no carioca. Falta gentileza. Falta amor. Em outro ponto do engarrafamento, um motoqueiro desceu de sua moto e foi agredir verbalmente o motorista de um carro. Gente, que lugar é esse?

Ah, nos poucos quilômetros que percorri nessas quase duas horas e meia, um grande detalhe: não tinha um agente da Guarda Municipal, um verdinho da CET-RIO. Um bairro enorme simplesmente parou e a Prefeitura não disponibilizou um mísero auxiliar para nos ajudar. É pra isso que eu pago imposto: pra ter que ficar omissa diante de um prefeito retardado que foi reeleito graças a 66% de outros retardados como ele. Eu me orgulho de não ter votado em Eduardo Paes e corja. Todas os dias guardo um quê de revolta, mas deito com a cabeça tranquila de não fazer parte dessa massa acéfala.

Dizem que o bom brasileiro não desiste nunca... Eu sou carioca e já desisti faz tempo.

4 comentários:

  1. Lamentável querida, essa realidade é triste de se ver!

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  2. Tá dificil mesmo amiga...Nao se passa um dia que eu nao pense em ir embora do Rio embora eu ame a minha cidade. Mas esta ficando impossivel viver aqui.

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  3. Acabei d chegar aqui e me deparei com seu desabafo... Como carioca assino embaixo!
    Muito triste viver com nossa "cidade maravilhosa" nas mãos de políticos imbecis.
    Bjo!

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  4. Carol, você disse tudo. Neste mesmo dia tive que descer na saída da Linha Amarela no Pechincha e ir andando até a Taquara, depois de um dia cansativo no trabalho em que também levantei e ainda estava escuro. É um descaso com o povo de Jacarepaguá. E você viu falando em algum lugar sobre o ocorrido? Sobre o trânsito P-A-R-A-D-O? Parado mesmo, nunca vi tanto assim.
    Enfim, realmente é de se desistir.

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