Carta para Manuela

06 outubro 2014
Filha,

Hoje foi o 11º dia em que não pude senti-la no meu ventre.

Foram os onze dias mais cruéis da minha vida.

Não tem hora que a mamãe não se lembre de você, do nosso último encontro, do seu enxoval, dos seus pulinhos, do tanto de alegria que você conseguia arrancar de nós, até nos dias mais chatos.

Mas as coisas estão caminhando, filha. Tá difícil, mas tá caminhando.

Nesses onze dias a mamãe tem percebido que as mudanças causadas pela gravidez já estão indo embora. A barriga encolheu, os seios pararam de vazar, os pés desincharam. O papai ainda ajuda a mamãe no banho, porque o médico pediu que eu não me abaixasse. Mas a cabeça da mamãe ainda está tão degringolada, filha... que é difícil ordenar os pensamentos. 

Ontem Deus falou comigo, filha. Enquanto eu olhava a paisagem, Deus falou que tudo aquilo era obra Dele, e eu percebia o quanto era maravilhosa. E, desse mesmo modo, a obra Dele se cumpriria pra mim. E desde então, a mamãe parou de sentir raiva de Deus e as lágrimas de raiva viraram lágrimas de saudade.

E hoje, enquanto a mamãe tentava distrair a cabeça olhando o Facebook e viu mais uma das inúmeras postagens sobre parto normal que circulam por lá, o pensamento foi somente um: Mamãe escolheu que você viesse por cesariana. Sua mãe adora um protocolo médico. No final, filha, a mamãe queria apenas que você nascesse, não importaria por qual meio. A mamãe só queria que você esperasse mais um pouquinho aqui dentro pra nascer pertinho do ano novo e vir saudável para os meus braços. Essas coisas que as pessoas inventam aqui nesse mundo pouco importam quando tudo que a gente quer é vida. Tem aqui na barriga uma marca que a mamãe jamais vai esquecer. Desculpa a sua mãe, filha... eu pedi uma cesariana ao invés da indução do " parto normal". Era um momento tão dolorido que tudo que a mamãe queria era passar por cima da maneira mais rápida possível. A mamãe pediu pra ser dopada e não te ver, e ainda não sei se me arrependo disso ou não. Talvez fosse bom me despedir de você, te pegar no colo, fazer carinho e dizer o quanto você é amada. Mas a mamãe optou por não te ver e ficar apenas com a memória boa dos dias em que estivemos juntas, conversando, ouvindo Nando Reis... e agora com a certeza de que você está bem amparada em um lugar lindo e feliz.

A mamãe e o papai estão tentando seguir em frente, e a gente sabe o quanto essa tristeza atrapalha a sua caminhada nesse "velho mundo novo" onde você está agora. Mas a gente também sabe, na nossa reles ignorância humana, que você está olhando por nós. Então perdoa as lágrimas dos seus pais, filha. A gente promete que serão temporárias.

Numa das inúmeras leituras que andamos fazendo na internet, vimos que muitas vezes os bebês morrem assim, que nem você, para curar algum mal que ficou de outra vida e que, em algumas vezes, esses espíritos retornam para a mesma família. Fique sabendo, filha, que todas as noites pedimos a Deus que você volte. E, no dia que você voltar, todo o amor do mundo estará aqui guardadinho, esperando por você, para rirmos de novo, ouvirmos as mesmas músicas... nós só desejamos que você volte rápido e traga de volta a nossa felicidade, no sentido mais pleno da palavra.

Te amamos, filha.

Beijo apertado, mamãe.

Comente com o Facebook:

Um comentário:

  1. Carol,
    você é mais forte e guerreira do que pode imaginar, quando soube da sua gravidez mandei msg dizendo que via Deus em você, Ele é perfeito. Continuo enxergando ;)

    beijos!!!!

    ResponderExcluir



Feito com ♥ por Lariz Santana