Um guia de como lidar com mães de anjos

24 fevereiro 2015
Pois é, se passaram 5 meses sem a Manu comigo. O tempo voa...

E como eu estou? Bom, estou fisicamente bem, liberada para as tentativas desde dezembro e doida pra conseguir logo o positivo. Estamos também começando os trâmites para a adoção.

Psicologicamente, tenho épocas de recaída. Na semana passada tive uns dias bem tensos, com choro, saudade... na verdade, acho que essa dor nunca vai passar, sabe? A gente acha que superou e qualquer coisinha nos faz cair de novo. 

É tensa a vida de mãe de anjo... e uma coisa que aprendi com minhas amigas (também mães de anjos) é: a mulher só descobre a força que tem quando se reergue da perda de um filho. Não tem dor pior, eu juro. A gente passa muito tempo da vida achando que é forte, até que um baque desses acontece e a gente tem que escolher entre se entregar ou se reerguer. Eu escolhi me reerguer. E não é fácil, gente... nada fácil. 

Ainda me dói ver mulheres grávidas e com bebês perto da idade que Manu teria. Tenho tentado me corrigir quanto a isso, mas ainda dói. E gente, não adianta. Isso acontece e eu não me sinto um monstro. Eu quero superar no meu tempo, minha força vai voltar aos 100% no meu tempo. Toda a minha força está voltada para a gravidez da minha irmã e pronto. Minha força e meu amor estão todos focados nela e no meu sobrinho, que vem chegando lindo e forte pra alegrar nossa família. Teve uma época em que eu me culpava muito por isso, por "ignorar" as outras grávidas e seus bebês, mas hoje não mais. Eu sei que preciso entender que a vida passa, mas os outros também precisam entender a minha dor. Não me culpo mais, não mesmo. Me libertei disso. Fico muito feliz por todas as minhas amigas que viraram mães e rezo muito por todas as grávidas para que tenham seus bebês lindos e saudáveis. Mas é inevitável: a cada vez que vejo um bebê saudável (graças a Deus!), lembro que não pude ter a chance de ao menos tentar salvar a minha filha. Isso é um fato e não vai mudar num estalar de dedos. Bem que eu queria, mas a recuperação psicológica de uma mãe de anjo definitivamente não deve seguir os padrões impostos pela sociedade. E graças a Deus eu já consegui internalizar isso. E isso não acontece só comigo. Todas as minhas amigas mães de anjo pensam exatamente igual, tá?

Eu já consegui voltar a sorrir, dançar, fazer piada. A vida segue, e eu implantei o meu próprio ritmo de fazer a MINHA vida como mãe de anjo andar. E todas nós somos assim. Nós rimos, dançamos, viajamos, mas sempre haverá um tiquinho de dor guardado em um cantinho, que vai amenizando com o tempo. Não pense que, porque postamos fotos sorrindo no Instagram, estamos 100% recuperadas. Não estamos, mas estamos fazendo uma força gigante para sorrir e fazer a vida seguir em frente.

Uma coisa que ainda não me faz 100% confortável nessa história é a falta de sororidade com as mulheres que perderam seus filhos. Eu vejo pelas redes sociais milhares de campanhas sobre vias de parto, amamentação, feminismo, sling e cama compartilhada, mas não vejo NADA que expresse sororidade às mães de anjo. Nós somos solidárias entre nós, apenas. Somos quase uma tribo invisível, quando na verdade queríamos ser acolhidas como as mulheres que fazem opção pelo parto normal, que são adeptas da cama compartilhada ou as que lutam para amamentar em locais públicos. Nós precisamos dessa sororidade, mas infelzimente pelo contrário, nós ouvimos as coisas mais absurdas, e nós precisamos também da palavrinha mais famosa da internet: "empoderamento". Talvez mais do que você, mulher "normal". 

Eu, que sofri perda gestacional, já cheguei ao cúmulo de ouvir que não deveria sentir tanto, afinal eu nem vi minha filha - "era só na barriga, você nem deveria sentir essa dor toda, tá supervalorizando". Amigas minhas ouviram o mesmo. Ouvimos que não fomos as únicas mulheres no mundo a perderem seus filhos. É sério que a sociedade espera que nos reergamos ouvindo isso? Eu não fui a única, mas eu fui mais uma a sentir essa dor. Desculpa, gente, mas isso não é nada motivacional. Tem gente que ainda fala, sem maldade, que Deus sabe o que faz, que rapidinho vem outro... nós compreendemos que é sem maldade, mas gostaríamos que as pessoas colocassem a mão na consciência e pensassem: se você perdesse o seu filho, outro o substituiria? Você compreenderia a vontade de Deus em levar o seu filho? Pois é, nem nós. Nossos anjos são insubstituíveis, e eu bem digo que já sou mãe de 3 (afinal, já foram 3 perdas). Outro dia uma mãe de anjo conhecida ficou super triste porque, em uma conversa em grupo, alguém falou para outra pessoa algo do tipo "até que enfim vem um menininho na família, aqui só se faz mulher!" e ela pensou "Caramba, meu filho existiu. Ele não sobreviveu, mas não é pras pessoas ignorarem a existência dele". E sabe... eu não tiro a razão dela. Nossos filhos existem, estão vivos dentro de nós. Por favor, não os ignorem.

Tem gente que acha que a mulher recém-enlutada vai gostar de saber da gravidez alheia. Não, a gente não quer saber se você está grávida e quem não tá, tampouco queremos saber a quantas anda a gravidez da sua amiga. Nós somos mães que acabamos de perder os filhos. Não é recalque ou qualquer sentimento ruim, mas porque nós não tivemos a oportunidade de ter nossos filhos nos braços. Não que torçamos contra, muito pelo contrário, pois nós jamais desejaríamos às outras mulheres que vivenciem a nossa dor, mas simplesmente porque não conseguimos digerir bem o fato de todo mundo conseguir e nós não. Desejamos a sua felicidade, mas nos mantenha fora dos boletins. O nosso papel de não procurar informações nós já fazemos (tenha certeza), então por favor, não nos deixe ser "passivas" quanto ao recebimento da informação. Nós não queremos, de coração, e agradecemos por isso. Quando for do nosso interesse saber da sua gravidez e do seu bebê, nós procuraremos saber, ok? E não digam que já superamos a perda. Vocês saberão quando nossa dor amenizar um pouco.

Às vezes, é essa pitadinha de compaixão que falta. Nós todas sonhamos em ser mães, jamais desejaríamos o mal das outras mulheres, mas queremos só um pouquinho de sororidade, de solidariedade, de colo. Talvez um pouquinho de noção da parte dos outros, até. Nós definitivamente não queremos os holofotes virados pra nós, queremos apenas que as pessoas se ponham no nosso lugar. Não é difícil, né? ;)

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4 comentários:

  1. O que dizer desse texto maravilhoso???
    Parabens, voce amiga querida, falou um pouquinho pelas milhoes de maes do mundo inteiro que diariamente passa pelo descaso e maldade alheia. Sim, descaso e maldade esses, que as pessoas tem sem mesmo perceber porque esta na natureza das pessoas falar sem pensar. Se eu contar o que aconteceu, no dia que eu cheguei em casabde braços vazios da maternidade...
    Uma moça aqui de onde eu moro me disse: Deus sabe onqie faz (oooh frase infeliz) ele vainte dar uma coisa muito melhor e mais perfeita donque a que ele te tirou. Mas nao, a minha Chiara era perfeita, e nenhum bebe entraria no lugar dela. Nao, ela nao esta sendo substituida. Estou novamente gravida, mas a Antonella e a Antonella e a Chiara é a Chiara e o espaço que ela tem no meu coraçao e e ssmpre sera so dela. O amor que sinto por ela, so dela.
    Parabens pelo texto amiga!

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  2. Carol, acabei de ler seu texto! E o que dizer sobre ele? Simplesmente, parabéns! Parabéns por ter colocado em belas palavras seus sentimentos. parabéns por você e seu marido estarem se reerguendo, parabéns pela consciência realista com relação a td q vcs passaram! Gostei mto de ter te "conhecido", mesmo que virtualmente e de fazermos parte da mesma "tribo". Torço por sua felicidade, como torço pela felicidade das minhas amigas mais próximas! Grande abraço! Jú Matias

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  3. Carol, espero que sua dor seja amenizada aos poucos.

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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Feito com ♥ por Lariz Santana